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Prof.
Dr. Marco Antônio dos Reis Pereira
Departamento de Engenharia Mecânica - UNESP / Bauru -
SP
BB
- Como começou seu interesse pelo
bambu?
R:
Quando fazia mestrado, em 1990, na área de irrigação e drenagem,
pensei em desenvolver um trabalho que pudesse beneficiar pequenos
produtores, que compõem a maioria das propriedades rurais em
nosso país e são, em sua maioria, carentes de tecnologia. Assim,
resolvi testar o bambu, que é um material natural, renovável,
de baixo custo e que existe espalhado no meio rural.
Utilizei
o bambu gigante, que possui dimensões e características adequadas
para utilização como tubo condutor de água. Instalei e testei
no campo (UNESP-Campus de Bauru/SP) um pequeno sistema de irrigação
por aspersão convencional, usando o bambu como tubulação. A
pesquisa teve êxito, sendo alvo de várias reportagens, como
no programa Globo Rural em 1995.
Com
esse trabalho pude conhecer melhor o bambu, estudei e busquei
mais informações sobre esta planta e pude perceber que o bambu
é muito mais que simples vara de pescar, pipas e ornamentação
de festas juninas. Ele possui milhares de uso e é utilizado
a milhares de anos, acompanhando o desenvolvimento do ser humano
desde o seu início, especialmente entre povos orientais como
China, Índia e Japão.
Após
o mestrado, fiz doutorado, também com bambu, verificando em
laboratório, as características hidráulicas dos tubos. A conclusão
foi que o bambu tem um comportamento hidráulico satisfatório
em termos da perda de carga apresentada, sendo capaz de suportar
pressões da ordem de 50 mca (5 atm) ou mais, como, aliás, nosso
trabalho de campo já havia indicado.
BB -
Quais são as principais aplicações do bambu dentro da
sua profissão?
R:
Sou engenheiro agrícola e trabalho no departamento de engenharia
mecânica da UNESP/Campus de Bauru. Como engenheiro agrícola,
vejo muitas possibilidades para o bambu, especialmente no meio
rural. É uma planta que pode ser utilizada para praticamente
tudo: alimento, abrigo, construções, lenha, carvão, protetor
de solo, barreira de vento, regenerador ambiental, mata ciliar,
tubos, artesanato, móveis..., enfim, centenas de usos. Os chineses
têm catalogado mais de 1.500 usos para o bambu.
Como pesquisador,
após o trabalho com irrigação, estamos estudando o desenvolvimento
do bambu processado na forma laminado colado, a qual tem muitas
possibilidades de uso e aplicação, tais como: pisos, painéis,
elementos estruturais para construção, cabos de ferramentas
diversas, etc. Temos um trabalho de plantio e manutenção de
uma coleção com as melhores espécies e, ainda, um projeto para
reprodução in vitro destas espécies, em parceria com ESALQ/USP
e UNESP/Campus de Botucatu.
BB -
Por quê o tratamento do bambu é tão controverso?
R:
Eu diria que as formas de se tratar os colmos de bambu é que
são variadas e isto porque para cada local e cada aplicação
parece haver um tratamento mais adequado, por exemplo: em contato
com o solo como é o caso dos tubos para condução de água o bambu
será atacado por fungos, neste caso o tratamento químico por
substituição de seiva parece ser o mais adequado, quando exposto
ao sol e chuva a deterioração é diferente. Quando é utilizado
protegido das condições ambientais, certamente a durabilidade
é maior. Existem casas na Colômbia com 100 anos de idade. Os
fabricantes de móveis usam o fogo como tratamento. A idade que
um colmo é colhido é também muito importante, pois cortado ainda
imaturo vai deteriorar mais facilmente. Existem muitos tratamentos,
que basicamente podem ser divididos em dois tipos: os naturais
como cura natural, cura pela água e pelo fogo e os que utilizam
produtos químicos que são considerados mais eficientes. De qualquer
maneira, o bambu deve ser tratado para sua maior durabilidade.
BB -
Quais as vantagens do bambu aplicado em tubulações para irrigação?
R:
A grande vantagem, sem dúvida, é o baixo custo e a facilidade
de se trabalhar com esse material. Utilizando-se ferramentas
e materiais simples e baratos, é possível transformar um colmo
em um tubo para condução de água ou mesmo montar um pequeno
sistema de irrigação. Costumo dizer que possuir uma moita de
bambu equivale a ter uma pequena "fábrica" de tubos na propriedade.
Destacamos
que, no tocante à durabilidade dos tubos de bambu, nosso trabalho
mostrou que quando utilizados, enterrados, sem qualquer tratamento,
duram entre 1 a 1,5 anos, porém, a substituição dos tubos estragados
é uma operação rápida e fácil de ser executada. Já os tubos
tratados quimicamente (método boucherie de substituição de seiva)
tiveram vida útil de 6 anos em nossos testes.
BB -
Quais as linhas de pesquisa com bambu que você está seguindo?
R: Principalmente a pesquisa e desenvolvimento de produtos
à base de bambu processado ou laminado colado, o plantio e a
reprodução de espécies prioritárias, como já mencionamos anteriormente.
Nossa idéia é plantar módulos de 1 Ha com as diversas espécies
prioritárias (recomendadas pelo INBAR - International Network
for Bamboo and Rattan) existentes em nosso meio.
BB -
O que levou você a planejar a apostila e o curso sobre bambu?
R: A apostila foi criada para atender ao "Curso Básico sobre
Bambu" por nós desenvolvido em virtude de um convite para ministrá-lo
em uma universidade. Não obstante, a literatura brasileira sobre
este tema é escassa e geralmente restrita a resultados de pesquisas
apresentados em congressos científicos. Procurei então reunir
as informações básicas para um primeiro contato com o assunto.
A apostila
contém aspectos técnicos básicos abrangendo do plantio e cultivo
ao tratamento, descrição de espécies, utilizações, sites na
internet e um capítulo dedicado à montagem de um sistema de
irrigação com tubos de bambu.
BB -
Qual a importância do bambu para o Brasil?
R: Eu diria que a importância é ainda pequena, mas que as possibilidades
são muitas. Polpa e celulose para confecção de papel é a maior
indústria que utiliza bambu como matéria prima. Artesanato,
cestaria, vara de pescar, móveis "cana da índia" e o broto comestível
são exemplos dos usos mais comuns entre nós. Hoje em dia o interesse
tem crescido a nível mundial, por ser um material renovável,
de rápido crescimento, baixo custo e diversidade na utilização,
podendo em muitos casos substituir a utilização de madeiras
nativas, além de ser considerado um excelente seqüestrador de
carbono. Sua beleza ao natural ou processado tem aumentado muito
a procura por esse material, especialmente para uso em arquitetura
e elementos construtivos.
BB -
De quais organizações que divulgam o uso do bambu você faz parte?
Qual a finalidade delas?
R: Sou filiado ao INBAR ( International Network for Bamboo and
Rattan ) que é uma organização sem fins lucrativos com sede
na China e que trabalha para a divulgação e fomento do bambu
em nível mundial, dentro do contexto de promover um desenvolvimento
sustentável com o bambu. O INBAR promove cursos, programas de
pesquisa e desenvolvimento e também divulga muita informação
através de publicações técnicas sobre o assunto. Atualmente
21 países são filiados ao INBAR. Nosso país ainda não é filiado,
mas estamos a caminho, e em sendo filiado crescem as possibilidades
para o desenvolvimento do bambu no Brasil, na minha opinião.
Participo do grupo de discussão Bambu Brasil e estou também
me filiando ao grupo bamboo plantations.
BB -
Qual a importância do estudo e propagação dos bambus nativos,
no geral ainda desconhecidos da maioria das pessoas?
R: Sem dúvida a importância do estudo e da propagação se
resume na divulgação da espécies suas características, propriedades
e possibilidades de aplicação, já que a maioria das pessoas
desconhece completamente o potencial desta planta. A maioria
dos bambus que vemos espalhados, especialmente no meio rural,
foram trazidos de outros países, mas se adaptaram tão bem por
aqui que se comportam como se fossem nativos. Considero os gêneros
Bambusa, Dendrocalamus, Pyllostachys, Guadua e Gigantochloa,
que já existem adaptados em nosso meio, como o que temos de
melhor para pesquisa e utilização.
BB -
De quais eventos sobre bambu você já participou?
R: Participei do V Internatinal Bamboo Congress (BIC) no ano
de 1998 na cidade de San José na Costa Rica, que foi um congresso
muito interessante onde pude comprovar que o bambu é muito pesquisado
e utilizado em outros países. O que me chamou também a atenção
foi que haviam muitos brasileiros presentes no congresso apresentando
trabalhos, o que indica que também estamos começando a nos interessar
mais profundamente pelo assunto.
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